Riocentro

imgresAvenida Salvador Allende, 6555, Barra da Tijuca

Um dos maiores centros de convenções da América Latina, foi o palco de um frustrado atentado à bomba por parte dos militares, durante um show em homenagem ao Dia dos Trabalhadores, na noite de 30 de abril de 1981.

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O Riocentro é um dos maiores centros de conferência da América Latina, localizado na Avenida Salvador Allende, Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Foi inaugurado em 1977 pelo então prefeito nomeado da cidade, o engenheiro Marcos Tamoio, primeiro a governar o município depois da fusão do estado da Guanabara. O espaço, planejado para receber grandes eventos, foi palco da Conferência Internacional do Meio Ambiente da ONU (ECO-92) e regularmente abriga a Bienal do Livro; é gerido por uma empresa desde 2007, quando foi privatizado durante os preparativos para os Jogos Panamericanos.

Na noite de 30 de Abril de 1981, ocorreu um show em homenagem ao Dia do Trabalhador, com a participação de inúmeros artistas populares e a presença de 20.000 espectadores, a maior parte deles jovens. Durante a apresentação duas bombas explodiram, uma próxima à casa de força e outra no estacionamento, em decorrência de uma tentativa frustrada de atentado cometida pelo chamado “Grupo Secreto”1 das Forças Armadas. Nessa ocasião, os dois responsáveis por implantar os artefatos explosivos acabaram sofrendo com a explosão: o sargento Guilherme Pereira do Rosário morreu e o capitão Wilson Dias Machado ficou gravemente ferido.

Ainda em 1981, para investigar o atentado, foi aberto um Inquérito Policial Militar (IPM), inicialmente comandado pelo coronel Luis Antonio do Prado Ribeiro, que se convenceu da autoria do capitão e do sargento. Ao longo do processo, ele foi substituído pelo coronel Job Lorena de Sant´Anna, que publicou um relatório utilizando expressões como “acidente” ou “ocorrido” para se referir ao atentado, além de eximindo a culpa de Rosário, Machado e dos outros integrantes da equipe envolvida na ação. A crise desencadeada pelas investigações levou também à renúncia do Ministro da Casa Civil, General Golbery do Couto e Silva.

Esse atentado faz parte de uma série de episódios semelhantes, ocorridos especialmente a partir de 1974, quando o general Ernesto Geisel assumiu o poder e declarou que o seu objetivo era realizar a transição entre a ditadura militar e a democracia; o então chefe do gabinete civil da Presidência General Couto e Silva, responsável por formular a abertura política, caracterizou-a como “lenta, gradual e segura” (como forma de evitar explicar a quantidade de mortos e desaparecidos causados pelo regime). Ainda assim, correntes internas das Forças Armadas que se opunham ao projeto de abertura democrática passaram a cometer esses atentados para causar instabilidade no processo de transição.

Sobre o Riocentro, uma nova investigação foi aberta em 1999, após uma série de matérias na imprensa e pressão dos movimentos sociais; naquela ocasião, o legista Elias Freitas, responsável pela necropsia do sargento Rosário, revelou pela primeira vez ter dito na ocasião ao encarregado do Inquérito Policial Militar do Riocentro, coronel Job Lorena, que a bomba explodira no colo do sargento (o relatório publicado pelo coronel Lorena informava que a bomba explodira no banco de trás do carro). Além disso, o coronel da reserva da Polícia Militar, Ile Marlen, garantiu que momentos depois da explosão da bomba, cinco agentes militares o procuraram pedindo autorização para desmontar duas bombas instaladas no interior do pavilhão onde se realizava o show.

Diante desses novos fatos, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados solicitou a reabertura do caso Riocentro. A procuradora da República Gilda Berger aceitou o pedido: para ela, o caso nem fora alcançado pela Lei da Anistia nem estava prescrito, já que o inquérito jamais se transformou em processo, condição essencial para os efeitos da Lei de Anistia. Mas em 4 de maio de 1999, o inquérito foi, mais uma vez, arquivado pelo ministro civil do STM Carlos Alberto Marques Soares, que alegou razões técnicas: a existência de uma decisão do STM de 1988 que enquadrou o episódio na Lei de Anistia.

Em 2014, uma nova denúncia no Ministério Público acusa quatro pessoas que ainda estão vivas de participação no atentado: são eles o ex-chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) general Newton Cruz; o comandante da PMERJ na época, general Nilton Cerqueira; o major que servia no DOI-I Divany Barros e o ex-delegado Cláudio Guerra. Segundo depoimentos atuais do próprio Divany Barros, ele retirou um caderno de telefones do bolso do sargento Rosário na noite do atentado, em que constavam os números de telefone dos membros do alto oficialato.

Para o procurador que atualmente conduz as investigações, Antônio Cabral, isso “é algo reputado como estranho no meio militar e poderia ter sido um indício de ligação de Rosário e de outros indivíduos do Grupo Secreto com os membros do núcleo de planejamento da organização criminosa”. A esposa de Rosário também contou que sofreu ameaças e teve sua casa invadida para que documentos do seu marido fossem destruídos. De acordo com essa nova denúncia, a organização do atentado passou por uma divisão de tarefa interna das equipes.

A primeira, liderada por Machado, se encarregaria de implantar as bombas no pavilhão interno. A segunda detonaria uma bomba na casa de força do Riocentro para que faltasse luz no local. Uma terceira equipe picharia a sigla Vanguarda Popular Revolucionária (VPR)2 no entorno do local, com o objetivo de incriminar integrantes do movimento de resistência armada, enquanto a quarta, guiada pelo delegado Guerra, efetuaria as prisões dos acusados de maneira fraudulenta pelo ataque.

Os seis são denunciados pelos crimes de tentativa de homicídio doloso, explosão, transporte de explosivos, formação de quadrilha, favorecimento pessoal e fraude processual. A discussão também envolve os limites da Lei de Anistia no Brasil. Além disso, é um caso considerado pelos denunciantes como grave, pois caso o atentado tivesse sido concretizado, seria uma das maiores tragédias da história do período republicano – de acordo com o MPF, trata-se de um “crime contra a pátria,” e portanto de um “crime imprescritível”.

Documentário exibido pela GloboNews sobre os 30 anos do atentado ao Riocentro

 

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