Estádio Caio Martins

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Rua Presidente Backer, s/n, Santa Rosa, Niterói/RJ

Logo após o golpe em 1964, diversas pessoas foram presas por motivos políticos e alocadas no ginásio do Complexo Esportivo Caio Martins. É considerado o primeiro estádio da América Latina a ser utilizado como prisão.

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O Estádio Caio Martins, equipamento que integra o complexo esportivo homônimo, foi inaugurado em 20 de julho de 1941. Seu nome homenageia o escoteiro Caio Vianna Martins, que em 1938, aos 15 anos de idade, sofreu um grave acidente ferroviário em Minas Gerais e recusou ajuda médica em detrimento de outros feridos. Localizado à Rua Presidente Backer, s/n, Santa Rosa, Niterói/RJ, o complexo já foi palco de grandes competições esportivas, a exemplo de dois campeonatos mundiais de basquete.

Contudo, o espaço carrega uma nódoa em sua história, posto ter sido o primeiro estádio de futebol da América Latina a ser utilizado como prisão. Documentos da polícia estadual, hoje de posse do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro [APERJ], atestam o uso do espaço esportivo como um cárcere instituído na ordem regular do Estado durante a ditadura civil-militar, posto a própria nominação utilizada pelo aparato repressivo, a saber, Presídio Caio Martins (KNAUSS & MAIA, 2014). Sob o comando das Forças Armadas, em especial o I Exército, o presídio esteve também intimamente vinculado ao Departamento de Ordem Política e Social e à Secretaria Estadual de Segurança Pública.

Na verdade, o uso político do estádio já não era novidade. Sua inauguração foi um dos símbolos da época do governo da interventoria de Ernani do Amaral Peixoto, durante o período do Estado Novo. Foi palco de inúmeros atos cívicos no contexto da Segunda Guerra Mundial, de comemorações do Dia do Trabalhador, repetindo o ritual que era marcado pelos discursos do presidente Getúlio Vargas no estádio de São Januário, na cidade do Rio de Janeiro. Os usos políticos e não esportivos do complexo foram constantes ao longo da história. (KNAUSS & MAIA, 2014, p. 117).

Sua transformação em cárcere, considerado por vezes um campo de concentração, aconteceu logo após o golpe de 1964, por volta de 23 ou 24 de abril, devido à superlotação de prisões e delegacias com presos políticos. Sua utilização para este fim se deu até os primeiros dias de julho. Segundo depoimentos, mais de 1000 pessoas foram presas no estádio. Segundo pesquisa documental realizada pela Comissão da Verdade de Niterói [CVN], pelo menos 339 pessoas foram presas no local, sendo estas oriundas de todo o estado do Rio de Janeiro. O perfil profissional do detidos era diverso, sendo possível identificar médicos, advogados, jornalistas, motoristas, bem como outras profissões. Contudo, é possível afirmar que maioria dos encarcerados eram envolvidos com atividades sindicais.

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 Em 18 de outubro de 2010 a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça realizou a 45º Caravana da Anistia na Faculdade de Direito da Universidade Federal Fluminense [UFF], em Niterói. Na ocasião, integrant5es do Fórum dos Operários Navais de Niterói reafirmaram a proposta de criação de um centro de memória em homenagem aos atingidos pela ditadura no Estádio Caio Martins. Já em 17 de julho de 2013, quando no lançamento da Comissão da Verdade de Niterói, a mesma reivindicação foi feita por Benedito Joaquim dos Santos. Ex-presidente do Sindicato dos Operários Navais, ele esteve preso no Caio Martins. No dia 19 de maio de 2012, o chão e as paredes da entrada do estádio amanheceram banhados de vermelho. Cartazes, faixas e fotografias de mortos e desaparecidos complementaram a intervenção que tinha por objetivo chamar atenção da população local para o fato do estádio ter funcionado como prisão política e reivindicar a construção de um memorial naquele espaço. Em 04 de junho de 2012, a Comissão Estadual de Reparação do Estado do Rio de Janeiro realizou uma cerimônia de reparação no próprio estádio. O evento reuniu em torno de 120 pessoas e homenageou alguns perseguidos políticos.

 

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