DOI-CODI/RJ

Rua Barão de Mesquita, 425, Tijuca

Órgão de inteligência e repressão subordinado ao Exército que funcionou no Quartel do 1º Batalhão da Polícia do Exército, responsável por capturar, manter em cárcere ilegal, torturar e assassinar uma série de opositores da ditadura.

Filtros: Mortos e Desaparecidos

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Segue uma listagem das pessoas mortas ou desaparecidas relacionadas a este lugar, conforme informações obtidas no livro-relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

(Constam nomes de pessoas presas, torturadas e mortas no prédio do DOI-CODI/RJ, ou por ação dos agentes deste órgão).

Cópia 5 de urlRoberto  Cietto
Preso quando passava casualmente em frente à casa que serviu de cativeiro do embaixador Charles Elbrick, no dia 04/09/1969, mesma data do sequestro do diplomata norte-americano, foi levado ao DOI-CODI, onde resistiu apenas algumas horas às torturas. Cietto era militante do MAR e havia fugido do presídio Lemos Brito em maio de 1969.

Cópia 20 de imgresMário Alves de Souza Vieira
Jornalista, fundador e principal dirigente do PCBR, foi morto em 17/01/70, aos 46 anos, em decorrência de torturas brutais.  Baiano, formou-se na faculdade de Letras, em Salvador, onde ajudou a criar a União Nacional dos Estudantes (UNE). Ingressou no PCB em 1945, tornando-se membro do Comitê Central em 1957. Principal líder da corrente de esquerda dentro do partido, passou a dirigir os jornais Novos Rumos e Imprensa Popular. A partir de 1964, passou a clandestinidade, sendo preso em julho. Em 1966, teve os direitos políticos cassados por dez anos. Resolveu então romper com o “Partidão”, fundando, ao lado de Apolônio de Carvalho e outros dissidentes, o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Em 16 de janeiro de 1970, foi preso no bairro da Abolição por volta das 20:00 horas. Segundo o seu companheiro e historiador Jacob Gorender, após sessões de espancamento, choques elétricos e terror psicológico, “os algozes o empalaram usando um cassetete de madeira com estrias de aço. A perfuração dos intestinos e, provavelmente, da úlcera duodenal, que suportava há anos, deve ter provocado hemorragia interna”. Sua esposa, Dilma Borges Vieira, foi uma das precursoras do movimento dos familiares de mortos e desaparecidos.

Cópia 21 de imgresCelso Gilberto de Oliveira
Militante da VPR, foi preso no Rio de Janeiro em 10/12/1970, momento em que as forças de repressão estavam especialmente ativas na busca pelos responsáveis por capturar o embaixador suíço. Detido por agentes do CISA, Celso Gilberto foi encaminhado ao DOI-CODI/RJ, onde após uma série de torturas e acareações com outros militantes, confessou a participação no sequestro e garantiu que levaria os militares ao cativeiro. Chegando no local, constatou-se a farsa e Celso Gilberto conseguiu fugir, sendo morto dias depois, provavelmente pelos mesmos agentes do DOI-CODI/RJ que o torturaram. O Estado não assume a responsabilidade pela sua morte até hoje.

Cópia 22 de imgresCópia 23 de imgresMaurício Guilherme da Silveira e Gerson Theodoro de Oliveira
Maurício e Gerson eram integrantes da VPR, acusados de participar de ações armadas como o sequestro do embaixador suíço, sendo presos no mesmo dia e local, e mortos sob torturas em 22/03/1971 nas dependências do DOI-CODI, ainda que os jornais da época tenham noticiado o caso como a morte de dois terroristas em decorrência de um “tiroteio”.

Walter Ribeiro Novaes
Baiano de nascimento, conhecido na militância da VPR como “Careca”, trabalhava como salva-vidas do Serviço de Salvamento Marítimo do Rio de Janeiro, na praia de Copacabana. Foi preso pela primeira vez no dia 13/06/1970, na praia, e desde então conta-se que passou a trabalhar na infra-estrutura de comando da organização, tendo participado dos sequestros do embaixador alemão e suiço. A segunda prisão, que resultou em desaparecimento, ocorreu em 12/07/1971, às 18:30, no bairro da Penha, quando ia para um encontro de rua com o simpatizante da organização conhecido como Alípio, que também era salva-vidas e trabalhava na Barra da Tijuca. Os ex-presos políticos Alex Polari de Alverga e Lúcia Maurício Alverga, também da VPR, em depoimentos prestados na época à Justiça Militar, denunciaram que os agentes do DOI-CODI/RJ disseram que Walter estava morto após ter sido torturado naquele órgão de repressão. Sabe-se, também, que os agentes policiais leram para outros presos trechos de depoimentos que teriam sido feitos por Walter. Inês Etienne Romeu, uma das sobreviventes da repressão na ditadura, conta que entre os dias 08 e 14 de julho houve inclusive comemorações entre os militares em relação a a morte de Walter.

 Cópia 24 de imgresHeleny Ferreira Telles Guariba e Paulo de Tarso Celestino da SilvaCópia 25 de imgres
Heleny e Paulo, militantes da ALN, foram presos por agentes do DOI-CODI/RJ em 12/07/1971 e desde então desapareceram. Heleny era diretora de teatro e professora de francês, tendo inclusive recebido bolsa de estudo para especialização na Europa. Em março de 1970, foi presa pela primeira vez na Operação Bandeirantes, em São Paulo, sendo torturada pelo capitães Albernaz e Homero. Solta em abril de 1971, se preparava para deixar o país quando foi novamente capturada ao lado de Paulo. Este, por sua vez, formado em “Humanidades” e “Direito”, foi presidente da Federação dos Estudantes Universitários de Brasília e fez curso de pós graduação em Sorbonne. Após a morte de Joaquim Câmara Ferreira, se tornou um dos principais membros da ALN, conhecido como “Vovô” e com experiência em treinamentos militares em Cuba. O pai de Paulo de Tarso, um deputado goiano cassado pelo AI-5, usou de todos os meios disponíveis para encontrar o filho, mas as buscas foram em vão. São tidos como desaparecidos desde que foram presos por agentes do DOI-CODI/RJ. 

Cópia 27 de imgresJorge Leal Gonçalves Pereira
Baiano de salvador e engenheiro eletricista, foi preso pela primeira vez ainda em abril de 1964, e acabou demitido da empresa estatal em que trabalhava, a Petrobrás. Passou a trabalhar na Companhia de Eletricidade da Bahia e a militar na Ação Popular (AP).  Sequestrado na Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, no dia 20/10/1970, por agentes do DOI-CODI/RJ, foi levado para o destacamento do Batalhão de Polícia do Exército, onde acabou acareado com o estudante Marco Antônio de Melo, com quem tinha marcado um encontro de rua. Cecília Coimbra, psicóloga e fundadora, mais tarde, do Grupo Tortura Nunca Mais, presa no DOI-CODI/RJ naquele momento, viu Jorge sendo levado para interrogatório. Amilcar Lobo, ex-médico que prestava serviços aos torturadores, confirmaria, anos depois numa entrevista, a morte de Jorge em decorrência das torturas.

imgresJoel Vasconcelos Santos 
Baiano do recôncavo e afro-descendente, o jovem trabalhou como sapateiro até se mudar para o Rio, em 1966, onde começou a estudar contabilidade na Escola Técnica de Comércio. Se tornou presidente da Associação Metropolitana de Estudantes Secundaristas (AMES) e dirigente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), entre 1970 e 1971. No momento de sua prisão, em 15/03/1971, era militante da União da Juventude Patriótica, organização ligada ao PCdoB. Junto com um companheiro, foi preso próximo a favela do Borel, após ser confundido com um traficante de drogas. Foi levado para o 6° Batalhão da PM junto com o seu amigo e, em seguida, ao quartel da PM na rua Evaristo da Veiga. Finalmente, foram transferidos para o DOI-CODI, onde Joel foi torturado até a morte. Sua mãe se torna uma figura importante na luta por memória, verdade e justiça.

Cópia 28 de imgresÍsis Dias de Oliveira e Paulo César Botelho Massa Cópia 29 de imgres
Ísis era paulista, estudante de piano e artes plásticas, fluente em espanhol e francês. Chegou a trabalhar na secretaria da empresa suiça Swift. Em 1966, iniciou um curso de Ciências Sociais na USP, iniciando sua militância no movimento estudantil. Paulo César, por sua vez, era um carioca que trabalhou em agências bancárias do Banco do Brasil, até ingressar na faculdade de Ciências Econômicas da UERJ, em 1968, iniciando também as suas atividades políticas. Ambos se tornaram companheiros e militantes da ALN, passando a morar na mesma casa – local em que estavam no dia 30/01/1972, quando foram presos por uma equipe do DOI-CODI. Em matéria do jornal Folha de S. Paulo, no dia 28/1/1979, um general de destacada posição dentro dos órgãos de repressão confirmou a morte de Ísis e Paulo César, dentre outros 10 desaparecidos. O ex-médico Amílcar Lobo, que servia ao DOI-CODI/RJ, reconheceu a foto de Ísis dentre os presos que lá atendeu.

Cópia 30 de imgresAntônio Carlos Nogueira Cabral
Estudante de Medicina da USP, se tornou presidente do Centro Acadêmico e, a partir de 1969, militante da ALN. Este é mais um caso em que o trabalho da CEMDP conseguiu derrubar a versão que prevaleceu durante muitos anos, de que esse estudante de Medicina paulista teria sido morto ao resistir à prisão. Na verdade, Antônio Carlos Nogueira Cabral foi morto depois de preso pelos agentes do DOI-CODI/RJ. Sua prisão, em circunstâncias ainda hoje não esclarecidas, ocorreu provavelmente em 11/04/1972, mas os fatos só foram divulgados pelos jornais no dia 18, com a versão de que Cabral morrera ao resistir à prisão na Rua Zizi, nº 115, bairro Lins de Vasconcelos. As informações dos jornais eram coincidentes quanto ao local, mas não quanto ao horário da ocorrência: às 2h20, segundo a Folha da Tarde, ou às 22 horas, conforme o Jornal do Brasil. Ao mesmo tempo, o atestado de óbito registra que Antonio Carlos morreu às 5h25, enquanto os peritos atenderam às 3h40 a ocorrência solicitada pelo DOPS/RJ, para laudo em local de morte violenta. A cena do “tiroteio” em Lins de Vasconcelos foi construída para encobrir a morte de Antônio Carlos sob tortura, dentro das dependências do Estado brasileiro.

Cópia 31 de imgresPaulo Costa Ribeiro Bastos e Sérgio Landulfo FurtadoCópia 32 de imgres
Enquanto o primeiro era filho de um general e engenheiro que, a partir de 1969 ingressou no MR-8, o outro era um economista, ligado à Dissidência Comunista da Bahia (grupo que, mais tarde, se juntaria à Dissidência Comunista da Guanabara, correntes oriundas do antigo PCB, para fundar o MR-8). Eles foram presos juntos, de acordo com as informações que puderam ser colhidas, em 11/07/1972, no bairro da Urca. Há duas versões sobre os fatos: ou foram surpreendidos no próprio apartamento em que residiam, ou conseguiram escapar dali e se refugiaram num ônibus que foi interceptado adiante, numa barreira dos agentes dos órgãos segurança que fechava a única saída daquele bairro, densamente habitado por militares. Foram levados ao DOI-CODI/RJ, onde acabaram torturados e mortos. Os dois nomes integram a lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.

Cópia 33 de imgresLincoln Cordeiro Oest
Militante político desde os 15 anos, atuou junto ao movimento operário e participou, como militar, do levante de novembro de 1935 da Aliança Nacional Libertadora. Em 1946, foi eleito deputado estadual pelo Partido Comunista, sendo cassado em 1948, quando a sigla foi colocada novamente na ilegalidade. Jornalista, em 1962 fez parte da Comissão de Solidariedade a Cuba e organizou a Comissão Cultural Brasil-Coréia do Norte. Em 10/04/1964, dia seguinte à decretação do primeiro Ato Institucional, os seus direitos políticos foram cassados pelo regime militar, sendo ele o 18º de uma lista de 100 nomes, iniciada com Luís Carlos Prestes e concluída com o cabo Anselmo. Enfrentou uma primeira prisão em 1968, pelo DOPS de São Paulo, onde foi torturado e após 18 dias liberado por ausência de acusações. Em 20/12/1972, integrando a Executiva do Comitê Central do PCdoB, foi novamente preso, aos 65 anos de idade, agora pelos agentes do DOI-CODI do Rio de Janeiro, que o torturaram até a morte.

Cópia 34 de imgresJosé Mendes de Sá Roriz
Cearense do Crato, aos 15 anos de idade, conseguiu falsificar sua própria idade para se engajar na 9ª Companhia de Fuzileiros Navais, lutando na II Guerra Mundial. Sob o comando do marechal Cordeiro de Farias lutou contra o nazi-fascismo no campo de batalha europeu. Foi ferido na guerra e perdeu a vista de um olho. Recebeu inúmeras condecorações e foi reformado como 2º Sargento em 1956. Tornou-se uma liderança dentre os ex-combatentes e sargentos. No pós-guerra, foi filiado ao Partido Comunista e participou de inúmeras mobilizações sindicais. Morando no Rio com a família, esteve preso várias vezes após abril de 1964, sendo recolhido à Vila Militar, Ilha das Flores, DOPS e Polícia do Exército. Teria ligações com Leonel Brizola e chegou a candidatar-se a deputado federal. Em 1965, asilou-se na embaixada do México e seguiu para aquele país. Em 1968, sua filha Suely foi presa e levada à Polícia do Exército do Rio de Janeiro, por ter feito declarações à imprensa em defesa do pai. Retornou em 1969 ao Brasil, para rever o filho Eduardo Licarião Roriz, gravemente acometido de meningite. Ficou vivendo no Brasil, clandestinamente, até sua prisão e morte em 17/02/1973, acusado de estar vinculado à organização clandestina RAN – Resistência Armada Nacional. Sá Roriz, ao saber que o filho ficaria preso até que ele próprio se apresentasse e preocupado com as ameaças feitas à sua família, se entregou ao marechal Cordeiro de Farias, sob cujo comando lutara na Itália, acreditando que assim garantia sua vida. No dia 30 de janeiro, Sá Roriz, acompanhado do marechal, foi ao gabinete do chefe do 1º Exército, Sizeno Sarmento, a quem se entregou em troca da liberdade do filho. Levado preso para o DOI-CODI, lá foi morto dezessete dias depois.

Cópia 36 de imgresLincoln Bicalho Roque
Capixaba de São José do Calçado, Lincoln cursou o primário no Grupo Escolar Bodart Júnior de Rio Novo do Sul (ES) e o Ginásio no Colégio Estadual do Espírito Santo em Vitória, onde tirou primeiro lugar, conseguindo cursar o segundo grau no Colégio Pedro II. Sempre foi um excelente aluno, aprovado em todos os vestibulares que prestou para Medicina do Estado do Rio de Janeiro. Cursou um ano na Faculdade Nacional de Medicina (UFRJ), mas trancou a matrícula para estudar Sociologia na mesma universidade. Formou-se em 1967 e foi contratado como professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. Em abril de 1968, em razão de suas atividades políticas, teve aposentadoria compulsória. Tornou-se militante do PCdoB logo após ter participado da conferência de fundação do PCBR. Pela versão oficial, Lincoln morreu ao reagir às forças de segurança, ao 28 anos de idade. Seu corpo foi encontrado ao lado do Pavilhão de São Cristóvão em 13/03/1973 com mais de 15 tiros. A relatora do processo na CEMDP afirmou, baseada em provas anexadas, que era falsa a versão oficial apresentada e que na verdade Lincoln fora assassinado sob torturas no DOI-CODI, como provam os depoimentos prestados por seus familiares e ex-presos políticos na ação ordinária movida pela família de Lincoln junto à 3ª Vara Federal do Rio de Janeiro.

Merival Araújo
Mato-grossense de Alto Paraguai, o estudante Merival Araújo foi morto sob torturas pelos agentes do DOI-CODI/RJ, uma semana depois de ser preso em frente do prédio nº 462 da rua das Laranjeiras, em 07/04/1973. Nesse endereço morava Francisco Jacques Moreira de Alvarenga, conhecido como Professor Jacques, militante da RAN (Resistência Armada Nacional) e amigo de Merival. Jacques fora preso dois dias antes pelo DOI-CODI/RJ e, coagido, decidiu colaborar e participou da montagem da emboscada para prender Merival. O encontro foi acertado por telefone, quando Francisco Jacques já estava preso. Jacques foi solto um mês depois e morto a tiros por um comando da ALN.

Cópia 37 de imgresUmberto de Albuquerque Câmara Neto
Paraibano de Campina Grande, Umberto tinha sido estudante de Medicina na Universidade Federal de Pernambuco. Foi presidente do Diretório Acadêmico de sua faculdade, que hoje se chama DAMUC – Diretório Acadêmico de Medicina Umberto Câmara Neto. Em 1968, já militando na AP, foi escolhido representante daquele estado na chapa de Jean Marc Von der Weid, formada por aquela organização clandestina em aliança com o PCdoB para dirigir a UNE, sendo preso pela primeira vez no 30º Congresso da entidade, em Ibiúna (SP). Em 1972, ainda no Movimento Estudantil, participou da tentativa de organizar as comemorações do cinqüentenário da Semana de Arte Moderna, frustradas nos principais estados pela intervenção dos órgãos de segurança que efetuaram dezenas de prisões, intolerantes até mesmo quanto a atividades culturais desse tipo. No final de 1972, já estava submetido a vários processos na Justiça Militar e tinha de viver e atuar em estrita clandestinidade. Alinhou-se com Paulo Wright e Honestino Guimarães na cisão sofrida pela AP nesse período, recusando o ingresso no PCdoB, e permaneceu como militante da APML. Foi preso no dia 08/10/1973 pelo DOI-CODI, no Rio de Janeiro, depois de ter encontrado numa viagem de ônibus seu companheiro de organização, assassinado pelos órgãos de segurança 20 dias depois, José Carlos Novaes da Mata Machado, que provavelmente já estava sendo seguido. O Ministério da Marinha confirma sua morte em outubro de 1973. Seu nome consta na lista de desaparecidos políticos do Anexo da Lei nº 9.140/95.

Cópia 38 de imgresJoão Batista Rita e Joaquim Pires Cerveira
Catarinense de Braço do Norte, João Batista mudou ainda criança para Criciúma (SC), onde estudou no Ginásio Madre Tereza Michel, até completar o curso ginasial. Foi então viver em Porto Alegre, onde começou sua militância política. Trabalhava em um escritório de advocacia e participava das mobilizações estudantis de 1968. Por sua estatura miúda, seu sobrenome lhe rendeu entre os amigos o apelido de “Ritinha”. Morava em Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre com a irmã Aidê. Integrado ao M3G, foi preso em 10 de abril de 1970, poucos dias depois da tentativa frustrada de seqüestro do cônsul americano no Rio Grande do Sul pela VPR, sendo muito torturado.
Major da Cavalaria do Exército Brasileiro, Joaquim Pires Cerveira era gaúcho de Pelotas, casadoCópia 39 de imgres com Maria de Lourdes Romanzini Pires Cerveira, com quem tinha três filhos. Filho de militar e órfão de pai aos 7 anos, foi enviado com os quatro irmãos para o Colégio Militar de Porto Alegre, onde estudou em regime de internato. Formado em Odontologia pela Universidade de Coimbra, também se dedicou ao ensino de Matemática após cursar a Academia Militar de Agulhas Negras. Filiou-se ao Partido Comunista logo após a derrubada do Estado Novo, quando tinha apenas 13 anos. Engajou-se nas mobilizações nacionalistas dos anos 50 e participou da campanha presidencial do Marechal Lott, em 1955. Radicou-se com a família em Curitiba e, já licenciado do Exército, foi eleito vereador. Passou à reserva pelo primeiro Ato Institucional, de 09/04/1964, por força de seus vínculos políticos com Leonel Brizola e de seu alinhamento com o chamado nacionalismo Revolucionário.
Ambos foram vítimas da “Operação Mercúrio”, que de certa forma antecipou a Operação Condor de 1975 e tinha por objetivo eliminar todos os banidos e ex-militares que tentassem voltar ao Brasil. Cerveira tinha sido banido em junho de 1970, quando do seqüestro do embaixador alemão, e João Batista quando do seqüestro do embaixador suíço, em janeiro de 1971. Os seus desaparecimentos contam como mais uma confirmação de que os órgãos de segurança do regime militar teriam decretado a pena de morte para todos que ousassem retornar clandestinamente ao Brasil. Foram sequestrados na Argentina em dezembro de 1973 e trazidos para o DOI-CODI do Rio de Janeiro, desaparecendo a partir de 12 ou 13/01/1974. Durante todo o ano de 1974 será mantida essa tônica: os órgãos de segurança não anunciam a morte de nenhum opositor; todos se tornam desaparecidos. Segundo as informações constantes no processo formado na CEMDP, eles foram presos juntos, em Buenos Aires, a depender da fonte em 5 ou 11/12/1973, por policiais brasileiros, entre os quais estaria o delegado Sérgio Paranhos Fleury. Foram vistos por alguns presos políticos no DOI-CODI/RJ, quando chegaram trazidos por uma ambulância. Segundo a descrição das testemunhas, estavam amarrados juntos, em posição fetal, tendo os rostos inchados e com a cabeça repleta de sangue.

Cópia 40 de imgresFernando Augusto de Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho
Fernando Santa Cruz era casado com Ana Lúcia Valença Santa Cruz Oliveira, com quem teve um filho de nome Felipe. Tinha vida absolutamente legal e era funcionário do Departamento de Águas e Energia Elétrica, em São Paulo, onde morava com a mulher e Felipe, então com dois anos. Era um sábado de carnaval e a família estava no Rio de Janeiro. Por volta das 15h30min, Fernando saiu da casa do irmão Marcelo, para se encontrar com Eduardo Collier às 16 horas. Deixou no ar a advertência: se não voltasse até 18 horas, teria sido preso. Já tinha sido preso uma vez, em uma passeata do Movimento Estudantil contra os acordos MEC-Usaid, em Recife, no ano de 1966. Participou ativamente das mobilizações estudantis de Recife até 1968, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Ali, passou a trabalhar como pesquisador na Coordenação de Habitação de Interesse Social da área metropolitana do Grande Rio, do Ministério do Interior. Em 1972, matriculou-se no curso de Direito da Universidade Federal Fluminense.
Eduardo Collier Filho cursou Direito na Universidade Federal da Bahia, em Salvador. Havia sido Cópia 41 de imgresindiciado em inquérito policial pelo DOPS/SP, em 12/10/1968, por ter participado do 30º Congresso da UNE, em Ibiúna (SP). Em 1969, foi expulso da universidade pelo decreto 477. Militante da AP tanto quanto Fernando Santa Cruz, alinharam-se ambos, a partir de 1972 na ala dessa organização clandestina que não concordou com a incorporação da organização ao PCdoB e se manteve estruturada como APML, da mesma forma que Paulo Wright, Honestino Guimarães, Umberto Câmara e outros.
Nascidos ambos em Recife, amigos desde a infância, foram presos juntos em Copacabana, no Rio de Janeiro, por agentes do DOI-CODI/RJ, em 23/02/1974, quando faltavam poucas semanas para ter fim o governo Garrastazu Médici. Os seus desaparecimentos foram levados também à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, com sede em Washington, ao Tribunal Bertrand Russel, à Câmara dos Deputados, onde os então deputados Fernando Lira e Jarbas Vasconcelos denunciaram o episódio na tribuna e ainda à dezenas de personalidades históricas do Brasil, entre apoiadores e opositores do regime militar, como Tristão de Athayde, Dom Helder Câmara, os generais Reynaldo Melo de Almeida e Sylvio Frota e os marechais Cordeiro de Farias e Juarez Távora. Em 07/08/1974, houve uma audiência com o general Golbery, articulada por Dom Paulo Evaristo Arns: era a primeira vez que o governo militar recebia os familiares de desaparecidos. Nenhuma resposta foi dada. Apenas seis meses depois, em fevereiro de 1975, o ministro da Justiça Armando Falcão fez um pronunciamento respondendo aos familiares com a cínica informação de que os desaparecidos estavam todos foragidos.
No Arquivo do DOPS/SP, na ficha de Fernando Santa Cruz consta: “Nascido em 1948, casado, funcionário público, estudante de Direito, preso no RJ em 23/02/74”. O Relatório do Exército de 1993 contém apenas a qualificação de Fernando e sua militância na APML e o Ministério da Marinha informa que “foi preso no RJ em 23/02/74, sendo dado como desaparecido a partir de então”. Quanto a Eduardo Collier, seu nome aparece no Arquivo do DOPS/PR na gaveta identificada com a palavra “falecidos”. O Relatório do Ministério do Exército registra que, “conforme reportagem veiculada no Jornal de Brasília, em sua edição do dia 31/10/1975, o nominado teria sido preso em 23/01/1974, no estado do Rio Grande do Sul, após permanecer por um longo período foragido da Justiça Militar” (o Relatório baseia-se numa matéria da imprensa). Já o Relatório do Ministério da Marinha menciona que “desapareceu quando visitava parente na Guanabara”. Como foram presos por agentes do DOI-CODI/RJ e desde então desapareceram, enquanto o caso não for esclarecido, a responsabilidade é dos agentes deste órgão. 

Tomaz Antônio da Silva Meirelles Neto
Cópia 42 de imgres
Jornalista e sociólogo, dirigente da ALN, o amazonense, chegou ao Rio de Janeiro em 1958, onde teve início seu engajamento político, participando do movimento secundarista através da UBES e, depois de iniciar a universidade, através da UNE. Em 1961, atuou abertamente na resistência em defesa da legalidade constitucional, contra a tentativa de golpe militar que se seguiu à renúncia do presidente Jânio Quadros.  Paralelamente à sua atividade profissional como jornalista, contribuiu na organização de inúmeras manifestações culturais e políticas no final dos anos 50 e início dos anos 60, por meio do Comitê Popular de Cultura da UNE. Cumprindo todos os trâmites legais em relação a um país com o qual o Brasil mantinha relações diplomáticas normais, Thomaz Meirelles solicitou uma bolsa de estudos para continuar sua formação universitária e seguiu para a União Soviética, em 1962, onde cursou Filosofia na Universidade Central de Moscou. Retornou ao Brasil em 13/11/1969, já na polarizada conjuntura repressiva do início do governo Médici. Poucos meses depois, foi obrigado a viver na clandestinidade. Preso pela primeira vez em 18/12/1970, quando transitava na Rua da Alfândega, foi levado para o DOI-CODI e lá sofreu a violência das torturas. Sua última prisão aconteceu em 07/05/1974, no bairro do Leblon, Rio de Janeiro, e a partir dessa data nunca mais foi visto. Em 15/04/1987, a revista IstoÉ, na reportagem Longe do Ponto Final, publicou declarações do ex-médico militar Amílcar Lobo de que havia visto Thomaz no DOI-CODI no Rio de Janeiro, sem precisar a data.

Armando Teixeira Fructuoso
Cópia 43 de imgresNascido no Rio de Janeiro, o operário Armando Teixeira Fructuoso estudou até completar o segundo grau e tornou-se ativista sindical logo após a derrubada do Estado Novo, liderando as mobilizações de seus colegas de trabalho na Light, empresa concessionária do serviço de bondes na então capital da República. Tornou-se delegado sindical, depois dirigente e por fim presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Light. Casou-se com Virgínia Ricardi Viana e com ela teve a filha Cláudia. No final dos anos 1940 já era um dirigente sindical destacado, ligado ao Partido Comunista. No início da década de 1950, representou o Brasil no Congresso Sindical Mundial pela Paz e contra a Guerra da Coréia. Também participou na Tchecoslováquia de um curso de capacitação política. Entre 1945 e 1964, foi preso 14 vezes por sua militância sindical, sendo que, numa greve da categoria, sua libertação foi exigida pelos trabalhadores e Fructuoso saiu do cárcere diretamente para a mesa de negociações. Com o Golpe de Estado de 1964, perdeu o mandato sindical, teve seus direitos políticos cassados, sofreu perseguições e foi obrigado a mergulhar na atuação clandestina. Entre 1967 e meados de 1968, ao lado de Manoel Jover Telles, Lincoln Bicalho Roque e outros militantes comunistas, alinhou-se no grupo dissidente do PCB no Rio de Janeiro que fundou o PCBR. No entanto, esse grupo permaneceu poucos meses no PCBR e, já no início de 1969, ingressou em bloco no PCdoB, onde Armando passaria a integrar o Comitê Central a partir de 1971.
Foi capturado por agentes do DOI-CODI do I Exército no bairro de Madureira, no Rio, quando se dirigia para um encontro com outro membro do PCdoB, por volta de 19 horas do dia 30/08/1975. Foi submetido a violentas torturas durante vários dias, segundo depoimentos de pessoas que estavam presas naquela unidade militar, entre elas os presos políticos Gildázio Westin Cosenza e Delzir Antônio Mathias, que chegaram a ser acareados com Armando, entre 4 e 7 de setembro.

 

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