Conflito na Praia do Sono

Praia do Sono (Fazenda Santa Maria)

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Viviam na região em torno de 200 famílias, que cultivavam produtos como banana, mandioca, farinha e feijão para a sua subsistência e para mercados locais, além de se dedicarem à pesca. Após a construção da rodovia Rio-Santos, pretensos proprietários apareceram na Praia do Sono com o objetivo de ali implantar projetos turísticos. O mais conhecido destes grileiros foi o presidente da EASA – Engenheiros Associados S/A-, Gibrail Nubile Tannus. Em 1950, o industrial comprou títulos da Fazenda Santa Maria do Mamanguá, próxima à Praia do Sono e, por isso, se dizia dono dessa paria e também de Ponta Negra, de Antigo Grande e de Antigo Pequeno.

Se intimidações aos posseiros já eram feitas desde esse tempo, elas se acentuaram depois de 1964, quando capangas, a mando de Gibrail Nubile Tannus, começaram a sistematicamente coagir os moradores da região. Além destas violações, Gibrail Nubile Tannus iniciou uma criação de cinquenta búfalos que comiam as plantações dos posseiros e até o sapé que servia de cobertura para as suas casas. Em 1969, ele induziu caiçaras, analfabetos, a colocarem suas impressões digitais em um documento de escritura pública de comodato, convencendo-os de que a assinatura daqueles papéis os garantiria na posse da terra. No entanto, a escritura dava ao industrial o título de posse da terra, posto que com ela os caiçaras passavam a ser considerados inquilinos.

Em 1981, denúncias feitas na reportagem da Folha São Paulo afirmavam que, na sua investida de apropriação da área do Sono, Gibrail Nubile Tannus não só conseguiu escrituras irregulares como também queimou benfeitorias e ameaçou, prendeu e
espancou, com a ajuda da polícia, posseiros de quatro praias de Paraty. Além destas ações,
o industrial construiu uma guarita na entrada da área que dava acesso à praia, impedindo
o livre transitar dos agricultores. A guarita foi apenas retirada em 1983, pelo prefeito de
Paraty, Edson Lacerda, que conseguiu junto à justiça que a passagem fosse aberta à
população. No entanto, o empresário já havia colocado um mataburro, impedindo o
tráfego de animais. Com isso, os agricultores e caiçaras tinham de levar nas costas seus
produtos quando tinham de sair da área para outras localidades.

Contra tais ações arbitrárias, bem como as ações que ocorriam em todo litoral sul
fluminense, 300 posseiros de 20 municípios foram à sede regional do Incra, protestar. Na
ocasião, foi entregue um ofício à instituição, denunciando o caso, contudo, tais
arbitrariedades perduraram ao longo dos anos 1980.

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