Ação Cartográfica

Os mapas têm diversas finalidades e funções. Ao longo da história, esses instrumentos foram utilizados para localização e navegação, definição de limites, informação funcional, compreensão do mundo físico, difusão de idéias sobres lugares, dentre outras aplicações.

Mapas expressam a compreensão das diferentes sociedades sobre o que é o mundo. A compreensão, por exemplo, do que era o mundo colonial – além de ser influenciada pelo estágio do conhecimento da época – era também a idéia que se tinha do desconhecido. Além de localizar e fornecer orientação espacial, mapas continham as representações do (des)conhecido. (HEIDRICH, 2010, p. 34).

Permeados por jogos de poder e tradicionalmente relacionados às ações de organização e administração dos espaços, os mapas, “como meio de registro e representação, estão vinculados ao poder de nomear e situar o outro. Cabem então algumas perguntas: Quais os critérios e convenções adotados na construção (ou entendimento) de determinados mapas? Quem os constrói e com quais finalidades?” (ARAÚJO, 2010, p. 20/21).

Levando em consideração a produção cartográfica como uma ferramenta de estratégica importância para a disputa de territórios, a ação Cartografias da Ditadura tem por escopo colocar em análise tais perguntas, fazendo com que o mapa deixe de ser apenas um registro gráfico de representação para se transformar em um espaço de expressão de experiências coletivas, de encontros e trocas. O intuito aqui é sobrepor outras informações e grifar outros significados no mapa para assim possibilitar a produção de outras camadas de sentido. Interferir neste mapa é refazer uma outra cidade, a qual não tem mais sua história escrita no mapa de contornos bem delineados.

Evidenciando cartograficamente as práticas da repressão ditatorial, bem como os atos de resistência àquele regime, esboça-se, aos poucos, o mapa de um Rio de Janeiro que desmancha a pálida imagética construída pelos discursos hegemônicos de poder. Trata-se de produzir outros sentidos acerca de lugares do passado ainda hoje muito presentes através do trabalho da memória, o qual se dá no imbricamento das biografias individuais e da história coletiva. “O mapa da memória do eu e o mapa da memória da cidade se sobrepõem, não é possível desenhar um sem o outro” (BOLLE, 1994, p. 318). Neste mesmo sentido, assevera o filósofo berlinense Walter Benjamin quando afirma que

a língua tem indicado inequivocamente que a memória não é um instrumento para exploração do passado; é, antes, seu meio. É o meio onde se deu a vivência, assim como o solo é o meio no qual as antigas cidades estão soterradas. Quem pretende se aproximar do próprio passado soterrado deve agir como um homem que escava. (BENJAMIN, 1995, p.. 239)

 No cruzamento da história da técnica e dos processos sociais, esta ação cartográfica intenta produzir um regime de sensibilidade que traga à tona combates urbanos que reivindicam um passado deliberadamente soterrado, esquecido e silenciado pelas versões oficiais da história.

Porosa e vulnerável, a memória transgride ao criar infinitas possibilidades de contar o agora ou o ontem, desprezando a estabilidade dos coletivos ou das individualidades tecidas na solidão. Na contingência urbana dos encontros, nada está concluído, estável ou sereno. Como o movimento marítimo, a forma da memória é indissociável da sua força, alimentada por experiências infinitamente compartilhadas. (BAPTISTA, 2009, p. 28).

 O trabalho da memória consiste justamente nestas infinitas operações de transmissão da palavra, de recuperação de tradições, vidas, falas e imagens danificadas pela violência de outrora, forjando assim atualizações do passado para dotar de sentido o presente. Materializado na ferramenta cartográfica, o trabalho da memória cumpre aqui uma tarefa ética imprescindível aos dias atuais, a saber, de salvar o passado do esquecimento, afinal, como afirmou Benjamin (1994, p. 224/225) em seu derradeiro escrito, “também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

Bibliografia

ARAÚJO, Lúcio. Lugar, representação e resistência. In: WASHINGTON, Claudia; ARAÚJO, Lúcio; GOTO, Newton. Recartógrafos. Curitiba, PR: Edição do autor, 2010.

BAPTISTA, Luis Antonio. O veludo, o vidro e o plástico: desigualdade e diversidade na metrópole. Niterói: EdUFF, 2009.

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. In: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. v. 1: Magia e técnica, arte e política. 7a ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

______. Imagens do Pensamento. In: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. v. 2: Rua de mão única. 5a ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.

BOLLE, Willi. Fisiognomia da Metrópole Moderna: Representação da História em Walter Benjamin. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1994.

GAGNEBIN, Jeanne-Marie. Lembrar Escrever Esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006.

HEIDRICH, Álvaro Luiz. Esquema para dialogar com descartógrafos. In: WASHINGTON, Claudia; ARAÚJO, Lúcio; GOTO, Newton. Recartógrafos. Curitiba, PR: Edição do autor, 2010.